"O Edifício Onde Está
A história entre a arquitectura e a fotografia é já longa e intersticial. A possibilidade fotográfica instiga uma nova concepção espaço-temporal para a arquitectura. Nas primeiras décadas do século XX, a arquitectura moderna troca a perspectiva do observador único - que contempla a simetria e a linha do horizonte - pela sucessão de fragmentos arrancados ao tempo que a fotografia possibilita. O absoluto intemporal que a ordem clássica traduz é trocado por este novo absoluto que a fotografia ostenta, moldado pela contingência e pela multiplicidade de olhares.
Nesse sentido, dir-se-ia que o projecto de arquitectura deixa de pertencer a regras compositivas fixadas previamente, e investe numa montagem de vistas sucessivas
- "fotografias" - que visam aproximar a concepção do resultado final, isto é, da obra.
Ou seja, o projecto passa a ser mais uma formulação de uma hipótese de realidade; do que o cumprimento de regras estritas, abstractas, convencionais. Veja-se, nesse sentido, os desenhos perspécticos de Le Corbusier que prefiguram o espaço de modo "realista": são fotografias prévias, o negativo de futuras fotografias.
Como está bem documentado, a fotografia fixa uma deslocação temporal, cria um absoluto sem aura. Isto é, cria um artefacto reprodutível, democrático, "portátil, que decorre da experiência vivida. São essas, aliás, as características da generalidade dos desenvolvimentos tecnológicos e culturais da modernidade.
Também a arquitectura se deixa fixar em determinados ângulos e contextos, segundo uma luz manipulada, reproduzindo-se como conceito vertido em imagem.
Mas a experiência arquitectónica, além de "mediatizada", é também alargada, do "monumento" para a habitação, da igreja para a fábrica. E essa instabilidade e desejo que a fotografia estabiliza, recortando a "performance" do edifício, moldando-o, emoldurando-o, permitindo-lhe entrar na esfera de um absoluto
"mediático".
A fotografia é então, para a arquitectura moderna, um reflexo: o projecto trata da montagem de espaços passíveis de se transformarem em "imagem". Mas é também um instrumento: essas imagens comprovam a "retórica e divulgam a ênfase "higienista" e olímpica que a fundamenta.
Dir-se-ia que a arquitectura moderna, querendo desamarrar-se da história convencional, desafiando a sua inevitável firmitas, ganhando no conceito de
"espaço" a sua componente central, tem, na fotografia, o objecto que lhe garante a sua própria reprodutibilidade, o equivalente ao "tratado". A fotografia fixa imagens que se repercutirão, das geometrias precisas do início do século XX até às manchas blurred e apocalípticas do final do século. Da convicção "purista" as placas de titânio, o tempo mudou, mas a fotografia é a mesma, um "tratado" democrático que permite inúmeras variações e todas as ingenuidades passíveis de serem replicadas.
A fotografia de arquitectura é, por isso, muitas vezes denunciada enquanto substituto menor da experiência "real" do edifício. Mas, na verdade, nada substitui: é um fim em si mesmo, pertence, como dizia, à vocação de usufruto imediato, prazer e partilha que define a modernidade. Pertence a cada um de nós; é uma conquista moderna que a "pós-modernidade" tem vindo a limpar de qualquer resíduo "ideológico".
As fotografias de Luís Oliveira Santos do Museu Marítimo de Ilhavo, projecto da ARX Portugal, têm inscritas esta história de cumplicidade entre a fotografia e a arquitectura.
As paredes lisas e brancas que as fotografias transformam em superficies, ecoam o começo novo da arquitectura moderna, e remetem para as conquistas que os
"novos materiais" permitiram, abrindo vãos, projectando consolas, libertando as possibilidades formais. Os recortes geométricos e sombras, que já não são arquitectura mas forma pura, correspondem a esse encontro sublimado ao longo do século XX entre a fotografia e a "estética" moderna.
A arquitectura moderna estava predestinada a ser fotografada, a ser repercutida e acelerada como experiência visual.
As fotografias de Luís Oliveira Santos entendem bem a predisposição do Museu para ser fotografado. As reminiscências náuticas, as texturas contrastantes preto no branco, as transparências e planos longos são-nos devolvidas como "objectos" arrancados do edifício.
O Museu Marítimo de Ílhavo sendo luminoso também é pétreo; sendo horizontal também surpreende na altura da torre negra que se insinua no céu. E é também nessa duplicidade que as fotografias o procuram exercitar: desfocando-o para acentuar as dissonâncias altimétricas e formais; sublimando a ambiguidade que as sugeridas "velas" criam; evocando o vento que inclina as pequenas árvores no sentido do edifício.
Tratam-se portanto de fotografias climatéricas mais do que analíticas, focando as relações internas que asseguram a eloquente plasticidade do Museu. Ao negarem a presença do contexto, tendem a transformar as paredes em planos, a água em textura e as sombras em tempo. A presença urbana do edifício é devorada no preto e branco das fotografias. E é-nos devolvida com uma certa melancolia: a melancolia de um lugar ocupado, abstractizado. Onde o vento é o vento das fotografias; a árvore é a árvore das fotografias; e o edifício ainda ali está.
- Jorge Figueira"
Coleção de 10 postais com imagens em P&B do Museu Marítimo de Ílhavo
Fotografia: Luís Oliveira Santos
Texto: Jorge Figueira
Dimensões: 150 x 105 x 70 mm
Peso: 62g
Produzido por: Museu Marítimo de Ílhavo - Câmara Municipal de Ílhavo
Fabricado em: Portugal
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| SKU: | 12066 |
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